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terça-feira, 29 de abril de 2014

Quem é o bobo?

O Congresso Nacional, em Brasília, foi tomado por manifestantes
O Congresso Nacional, em Brasília, foi tomado por manifestantes
Fotos: AFP

    
Não se trata mais de dez ou vinte centavos. Aliás, nunca se tratou disso. As manifestações populares que vêm tomando corpo pelo País precisam ser compreendidas como avisos bem mais profundos. Um deles é direcionado ao governo, alertando sobre o excesso de impostos extorquidos diariamente do cidadão, que é obrigado a trabalhar cinco meses do ano apenas para pagá-los.

Outro aviso vai direto aos partidos políticos, indicando que eles já não estão mais com essa bola toda. Pelo contrário. Desfigurados, fisiológicos e cartoriais, essas agremiações representam cada vez menos os eleitores.

Um terceiro aviso – este mais amplo – deve ser escutado pelos políticos de uma forma geral, incluindo presidente, governadores, prefeitos, parlamentares e dirigentes: trata-se de uma última cobrança para que trabalhem mais pelo bem comum e menos em benefício de si próprios e estanquem de uma vez por todas a alarmante onda de corrupção que suga, de forma vampiresca, o dinheiro suado do povo.
Embora pesem no orçamento mensal de qualquer família mais pobre, os dez ou vinte centavos diários a mais na passagem dos ônibus terminam se transformando tão somente em um símbolo. Um combustível para mover as manifestações. Emociona ver o povo de volta às ruas. A história recente mostra que atos dessa natureza têm se configurado na única via para mudar alguma coisa de fato neste País.

Milhares protestaram na Praça da Sé, em São Paulo
Muitos anos depois de ter participado – ainda estudante – de atos pelas Diretas Já e pela eleição de Tancredo Neves, e após ter coberto, já como repórter político, as manifestações dos caras-pintadas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor, confesso que não esperava assistir tão cedo novas mobilizações de massa como as que ocorrem agora. Elas são prova de que o povo cansou. E em vez de ficar em casa, “guardado por Deus” e acomodado, ganhou novo fôlego. Embora os estudantes tenham novamente encabeçado a luta, é bonito ver a mistura de faixas etárias nas passeatas. Insatisfação não tem idade.

É verdade que, lá fora, o Brasil construiu a fama de País do futebol. Mas aqui dentro, hoje, é muito mais o País que clama por saúde, educação, moradia digna, emprego e transporte de qualidade. E vendo por esse ângulo, de fato os bilhões gastos com a Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas terminam representando uma afronta para os muitos cidadãos sem acesso a esses direitos básicos.

Partidos foram proibidos de participar das manifestações

A mancha negra – em meio ao branco da paz que tem predominado nas manifestações – fica por conta dos vândalos. Mas esses que preferem o quebra-quebra e o confronto violento representam realmente uma minoria. São a cara de um Brasil que já se foi. Ficou no passado. E só eles ainda não perceberam. Mas a ampla maioria da sociedade já entendeu, e endossa esses avisos dados pela multidão nas ruas.
O clima desses dias me fez lembrar um certo colunista que, recentemente, descreveu o Brasil como “um país de bobos”. Felizmente, o “bobo” foi forçado a engolir o que disse. Algo que vários outros pessimistas, ao que parece, vão terminar tendo que imitar.

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